Se no seu hospital há um chefe de faturamento ou de auditoria de contas que se vangloria pelo índice de glosa beirando o ZERO (0%), a melhor coisa a fazer é demiti-lo o mais rápido possível.

Em uma relação comercial em que a operadora lucra mais quanto menos seu beneficiário utilizar a rede, e o hospital lucra mais quanto mais “estropiado” estiver o paciente que usa ao máximo seus produtos, o conflito é inevitável, e a glosa é o melhor instrumento de aferição da eficiência na formação das contas.

Se o auditor da operadora não aponta glosa alguma, você tem 100% de chance de não estar faturando tudo que é possível – nada pode ser mais óbvio que isso, porque ainda não nasceu o auditor de operadora de planos de saúde que aponte que sua conta está “a menor”, ou seja, que você poderia estar faturando algo e não está!

E se você é gestor de um hospital que fatura contra o SUS e seu chefe de faturamento diz categoricamente que as AIHs (principalmente elas) “estão todas certinhas”, porque no SUS tudo é mais fácil; você tem 3 ações imediatas para fazer:

  1. Dar um curso de reciclagem para ele descobrir o tamanho da bobagem que está dizendo e/ou;
  2. Contratar uma consultoria para ajudar a colocar a “casa em ordem”, apesar da existência dele e/ou;
  3. Demiti-lo ou arrumar algo menos crítico para ele fazer no seu hospital.

Ainda tem muita gente que pensa que o faturamento SUS é fácil, e que não se pode fazer muita coisa para aumentar a receita do hospital. São pessoas que não sabem que a Tabela SIGGTAP é atualizada constantemente, que existe oportunidade de aumento dependendo do tipo de financiamento… São pessoas que ainda pensam que se cobra apenas o procedimento e nada mais – enfim: são pessoas que não sabem lidar com o assunto, muitas delas herdaram a chefia do departamento sem qualquer especialização, apenas por “tempo de serviço”.

Para ilustrar o assunto, vou trazer uma história que vivenciei fora da área da saúde:

Antes de entrar para a área da saúde, fui líder de projetos em um grande jornal de São Paulo, e dentre os vários projetos em que me envolvi, um deles era o que definia quantos exemplares de jornal deveriam ficar em cada banca de jornal – o nome do projeto era “Banca a Banca” (nada mais sugestivo).

Existiam vários parâmetros para definir a quantidade de exemplares (período do ano, clima, mercado financeiro, etc.), mas um deles era fundamental: o ideal era que em cada banca sobrasse 1 exemplar por dia.

Nada mais lógico:

Se sobrasse um monte, o jornal estava encalhando e perdendo dinheiro, é óbvio; mas se não sobrasse nenhum, ao contrário do que os leigos poderiam pensar, o jornal poderia estar perdendo mais dinheiro ainda, porque não sabia quantas pessoas quiseram comprar o jornal e não havia exemplar para vender!

Com a glosa (inclusive a do SUS) é a mesma coisa:

Se o percentual de glosa é elevado, significa que o hospital está empenhando muito esforço para tentar cobrar algo indevido, ou seja, um custo desnecessário para jogar coisas na conta que nunca serão realizadas; mas se não existe glosa, o hospital nunca sabe o quanto deixou de faturar, porque não existe parâmetro para fazer esta medição.

Então, vale para o SUS exatamente a mesma recomendação que damos na saúde suplementar:

  • Investir na padronização da coleta dos lançamentos;
  • Desenvolver kits de apontamento;
  • Formar a conta “o mais gorda possível” para que durante o processo de pré análise sejam limpas, ou seja, se é para errar, sempre errar para mais, porque se errar para menos, como diriam os adolescentes do final do século passado: “já era”!

Evidentemente, tudo isso deve ser feito absolutamente dentro do que é legal e ético – acho que nem era necessário dizer isso, mas é melhor prevenir…

Nos sites do Modelo GFACH e ADMHOSP existem diversas ferramentas para download gratuito que exemplificam o trabalho de desenvolvimento de kits, inclusive alguns exemplos de planilhas que costumam fazer aquilo que os sistemas geralmente não aderem 100% à necessidade da realização da receita.

Este último parágrafo foi citado de propósito porque uma das desculpas mais absurdas que você pode escutar do seu chefe de faturamento é que ele não consegue fazer mais porque o sistema é ruim (sempre o sistema… É fácil colocar a culpa em quem não pode retribuir “o coice”).

Quando se trata de realização de receita esta afirmação é inaceitável:

Primeiro porque entre 99 de 100 casos que analisamos, o que está ruim no hospital não é o sistema, e sim o processo; segundo porque o melhor sistema do mundo (ainda não inventado, diga-se de passagem) nunca vai conseguir produzir automaticamente contas perfeitas, nem no SUS nem na saúde suplementar, porque o sistema de financiamento SUS e o da Saúde Suplementar estão baseadas “no caos”, na complicação, na burocracia que dificulta ao invés de ajudar; e terceiro porque tudo que o sistema não faz, em 99,99% dos casos, sempre conseguimos fazer fora dele de uma forma ou de outra – basta querer!

Sócio-diretor na ESCEPTI atuando como consultor em Gestão Empresarial especializada em gestão de contratos, tecnologia da informação e engenharia de processos, com histórico de atuação nos segmentos da saúde, hotelaria e construção civil. Graduado em Tecnologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e pós-graduado em Administração pela Universidade de São Paulo (USP). Especializações pela Fundação Getúlio Vargas: Administração Hospitalar, Epidemiologia Hospitalar e Economia e Custos Hospitalares. Professor em turmas de pós-graduação e MBA na FGV, FIA, FUNDACE, Fundação Unimed, PUC-GO e FIT. Histórico Profissional: . Diretor Comercial e de Saúde Suplementar no InCor - Zerbini; . CIO no Hospital Sírio Libanês; . Superintendente de Sistemas e Métodos da Furukawa; . Diretor no Conselho de Administração na ASSESPRO-SP; . Associado na NCMA (National Contract Management Association), e SBIS (Sociedade Brasileira de Informatica em Saúde); . Membro do Comitê Científico do CATI (Congresso Anual de Tecnologia da Informação FGV/SP); . Sócio efetivo da FBAH (Federação Brasileira de Administradores Hospitalares). Autor de livros: . Administração Hospitalar no Brasil - Editora Manole; . Modelo GCVC - Gestão do Ciclo de Vida dos Contratos; . Modelo GCPP - Gestão e Controle de Projetos e Processos; . Modelo GFACH - Gestão em Faturamento, Auditoria de Contas e Comercial Hospitalar; . Modelo GIPH - Gestão em Informática e Processos Hospitalares; . Modelo GPAI - Gestão do Planejamento, Administração e Indicadores.

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