Sempre defendi a criação de um Departamento de Trânsito Interno dentro dos hospitais. Via de regra, essa ideia era vista com incredulidade, quase uma piada, mas acredite, não é não.

Lembre da quantidade e a variedade de meios de transporte sobre rodas que circulam por todos os ambientes do hospital. É ou não é significativo? Um indicativo de que merece um olhar de gestão. Neste artigo você vai perceber por que defendo essa ideia.

Quando se fala em transporte sobre rodas dentro dos hospitais, em geral as pessoas lembram de macas, cadeiras de rodas, quando muito um carrinho de refeição. Mas se você presta um pouquinho de atenção, percebe que é muito mais do que isso.

A Frota Interna do Hospital.

Começando pela área assistencial: a enfermagem vai fazer um curativo? Leva um carrinho ou uma mesa auxiliar com rodinhas com o material que vai usar. O laboratório vem colher sangue do paciente internado? Também traz com ele o suporte de braço e um carrinho ou uma mesa auxiliar com o material que vai utilizar.

Como se isso não bastasse, tem ainda os serviços de apoio, campeões em transportes sobre rodas. Começando pelo pessoal da limpeza e seus carrinhos funcionais. E a coleta de resíduos? Agora com a reciclagem, são vários carros coletores de resíduos sólidos que percorrem o prédio diariamente, quando não várias vezes ao dia.

A administração do enxoval não fica muito para atrás. O volume de roupas que são transportados tanto na distribuição das limpas quanto na coleta das roupas sujas, ainda mais pesadas e volumosas, em carros difíceis de dirigir.

Outro serviço de apoio que utiliza o transporte sobre rodas é a Farmácia, que se por um lado transporta materiais pequenos e leves, por outro, a depender do perfil do hospital, distribui uma enorme quantidade de soro pesado, não raro varias vezes por dia.

Já que estamos falando de abastecimento, não esqueçamos do almoxarifado, que distribui materiais dos mais diversos tipos para todas as áreas do hospital, sejam administrativas, apoio ou de assistência. Tudo isso circula sobre rodas por todo o edifício.

Ainda há os equipamentos portáteis, alguns bem pesados, como ultra-sons e raios X. Esses equipamentos são pesados,  sensíveis e nem sempre fáceis de dirigir.

Relação da Frota com o Edifício Hospitalar.

Como você pode notar, o que não falta no hospital são transportes sobre rodas. Isso por si só, não caracteriza um problema, claro. A questão é que a relevância desse fato no cotidiano do hospital é frequentemente subestimada. Principalmente no planejamento das divisões e dimensões de ambientes e circulações no projeto arquitetônico.

Você vai entender do que estamos falando com três exemplos simples que costumo presenciar. Com certeza você já se deparou com pelo menos um deles:

  • Danos causados pelo impacto mecânico desses carrinhos e equipamentos neles mesmos e no prédio. Vide portas, batentes e paredes marcadas e lascadas. É por isso que hoje a gente instala os chamados bate-macas: nome sugestivo, como se só as marcas se chocassem com os elementos do edifício. Com certeza você está familiarizado com as portas com aquelas marcadas horizontais e as broncas porque abrem as portas empurrando-as com os carrinhos e macas.
  • Uma questão que é sempre esquecida é a do estacionamento. Tão importante para os carros nas ruas, dentro do hospital não é muito diferente. Todos esses equipamentos e carrinhos que circulam em alguns momentos e sob determinadas demandas, precisam ser estacionados em algum lugar o resto do tempo. Assisti recentemente um hospital adquirir carrinhos de nutrição moderníssimos, excelentes para distribuição de refeições. Mas quando estacionados precisavam de tomadas especiais pra carregar suas baterias e não havia espaço disponível (nem circuitos elétricos) para estaciona-los sem que fossem atropelados por outros carrinhos que passavam.
  • O último exemplo é a questão dos fluxos. Sim, eu já vi engarrafamento de carrinhos e também de cadeiras de rodas dentro do hospital. Isso exige uma gestão dos horários e áreas de circulação de cada tipo de transporte sobre rodas. Quando se chega aos elevadores então, fica ainda mais crítico. A demora de uma refeição pode esfriá-la, de um enxoval pode comprometer a percepção de qualidade do paciente atrasando um procedimento ou a troca de lençóis vítimas de alguma intercorrência, por exemplo.

Gestão do Trânsito.

Se você chegou até aqui na leitura, já ficamos feliz!: certamente conseguimos fazer você refletir sobre o tema.

Hospitais se caracterizam pela multiplicidade de equipes totalmente diferentes trabalhando por um objetivo comum. Informática, Serviços Gerais, Enfermagem e Nutrição cumprem cada uma com sua missão, mas sempre buscando a sintonia com as demais.

Onde isso se mostra fisicamente é nos corredores e demais áreas comuns a todos. E esse território, quem gerencia? Não importa quem. Mas sim, que fique bem definido quem tem essa atribuição e que essa pessoa ou equipe saiba:

  • Ouvir com muita atenção e realmente entender as necessidades de cada equipe, para depois;
  • Usar de uma habilidade malabarista para encontrar o arranjo ideal de vias, fluxos, direções e horários de trânsito que atendam a todos de forma harmônica e sem danificar equipamentos, o edifício nem, muito menos, a qualidade dos serviços do seu hospital.

Espero termos mostrado a você que este tema não é tão engraçado assim. Ele merece atenção séria, começando já no projeto de arquitetura. Uma das consequências quando não recebe, é que carrinhos e paredes vivem danificadas pelos atropelamentos diários, e em seu hospital, como é gerenciada essa questão do trânsito interno?

Arquiteta Ellen Hardy, pós-graduada em Administração Hospitalar. Mais de 12 anos projetando, reformando e cuidando da manutenção de hospitais de referência, hoje dedica sua experiência a ajudar hospitais e clínicas de todo o Brasil a incrementarem a funcionalidade, o humanismo e a sustentabilidade de seus edifícios.

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