Toda a movimentação indiscutivelmente necessária, envolvendo a transparência na cadeia de OPME , sem dúvida, é um dos maiores marcos do mercado brasileiro da saúde.

Porém, fazer um exercício de futurologia analisando o que pode decorrer da possibilidade de vivermos em um ambiente livre de fraudes ou diretamente sustentado pelas altas margens de comercialização de órteses, próteses e materiais especiais, pode trazer efeitos colaterais drásticos na empregabilidade dos profissionais menos preparados.

Minha linha de raciocínio parte de dois cenários:

1. O faturamento de hospitais com a venda produtos necessários à assistência variam de 40 a 60% de toda a receita recebida por estas instituições, posto que as remunerações por taxas e diárias sempre foram extremamente baixas.

Deste montante de receitas, em média, 40% vêm de OPME’s comercializados com fontes pagadoras (SUS, cooperativas, planos privados,etc).

A partir dos ajustes de conduta no comportamento dos agentes da cadeia, bem como da interferência governamental nas regras de comercialização de OPME’s, devemos ver o seguinte:

a) O reequilíbrio do volume cirúrgico dentro de padrões normais e realmente necessários. A inicial onda de redução de procedimentos a partir das primeiras denúncias da chamada “Máfia das Próteses” causou uma queda de 30% do número de cirurgias realizadas em São Paulo;

b) Se existem menos cirurgias, menos profissionais serão necessário para garantir a operação do fluxo de OPME’s. E aqui estamos falando não só de hospitais, mas também de fornecedores, assistentes médicos e fontes pagadoras;

c) Não quero ser pessimista, mas parece que uma parte considerável da estrutura da cadeia, diante de tantos interesses “excêntricos” e abusos, era voltada para corrigir falhas ou forçar um direcionamento do fluxo de pagamento (ou glosas) das contas hospitalares. Se as ações governamentais ou o próprio autoajustes dos agentes tornará as regras de uso e venda mais claras, naturalmente, a linha de produção sofrerá menos sobressaltos, exigindo assim, uma ação humana bem menor que as dos dias de hoje.

Um exemplo disso são os procedimentos gerenciados. Compare a quantidade de esforço e de profissionais aplicados a garantir o faturamento de uma conta aberta X um pacote.

Colaboradores de auditoria, faturamento, cotações, agendamento e todos os outros inseridos em estruturas da cadeia de OPME’s baseadas na realidade do passado devem realmente estar preocupados.

2. A movimentação que fará as margens na venda de OPME caírem drasticamente poderá ter reflexos devastadores do mercado da saúde. Não só para os hospitais (os primeiros afetados), mas, mais uma vez, para fornecedores, médicos e operadoras que dependem da sustentabilidade e perenidade das instituições de saúde para desempenhar suas vendas, cirurgias e atendimentos médicos, respectivamente.

Quando perceberem que o modelo de remuneração baseada na venda de mat/med/OPME está se modificando, os hospitais terão que investir em algo que já deveriam ter feito por iniciativa própria: gestão de serviços.

As altas margens na venda de produtos durante anos mascararam a necessidade de se fazer mais com menos nas instituições de saúde. ao menos quando comparado à indústria ou outros setores de serviços.

A queda nas receitas obrigará hospitais a reduzir custos e aumentar o seu giro produtivo de forma a ganhar não mais no padrão “Grande Farmácia” , mas sim de acordo com sua capacidade de explorar ao máximo o uso de sua estrutura física e humana. Afinal, quando os parâmetros de comparação ficam mais precisos (de novo, lembremos os pacotes), ou você é competitivo ou está fora do mercado.

Lembra da época do downsizing, estratégia do final da década de 80 para enxugamento e racionalização dos processos e níveis hierárquicos? Pois bem… Ele pode estar de volta. Mais preocupações para os profissionais da saúde e seus empregos.

Sei que soa um pouco alarmista. Mas você, assim como eu, já deve ter recebido uma série de pedidos de ajuda de amigos que atuam em OPME que estão buscando recolocação nos últimos dois anos, ou não?

E como garantir que amanhã não seja você a pedir auxílio?

Uma dica que tenho é a seguinte: pense em algo que você realize que uma máquina, robô ou computador não poderá fazer, da mesma forma ou melhor, nos próximos 20 anos.

Isso se chama empregabilidade.

Administrador de Empresas com MBA pela Fundação Getúlio Vargas. Fundador da Conduta Saúde. Com mais de duas décadas de experiência conduzindo equipes de Suprimentos em grandes instituições hospitalares do país. Ronie Oliveira Reyes é especialista na gestão dos processos de aquisição com foco na eficiência operacional e no controle de custos.

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